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Dor Lombar - Estamos a fazer tudo mal?


Dor Lombar – Estamos a fazer tudo mal?




Caros amigos e amigas,

Aproveitando a comemoração recente dos Dias Mundiais da Atividade Física e da Saúde, e a publicação da mais recente série da revista científica The Lancet sobre Dor Lombar, achei por bem falar-vos um pouco sobre Dor Lombar/Lombalgia, tema que junta precisamente a Saúde e a Atividade Física.
Assim, e utilizando o material publicado pela The Lancet, quero alertar-vos para o facto de existirem uma série de verdades feitas sobre a dor lombar, que de facto não são assim tão verdade. Mas vamos por partes.

O que é a Dor Lombar/Lombalgia?
  • A dor lombar é neste momento a maior causa de incapacidade no mundo inteiro. É extremamente comum, sendo que a maioria da população irá ter dor lombar em alguma altura da sua vida.
  • Na Europa é a primeira causa de baixa médica e reforma antecipada. A incidência da dor lombar está a aumentar em todo o mundo e tem subido nos países menos desenvolvidos.
  • A maior parte dos episódios de dor lombar é de curta duração e sem grandes consequências, mas os episódios recorrentes são comuns e a dor lombar é cada vez mais vista como uma condição de longo prazo com um curso variável, em vez de ser vista como uma série de episódios ocasionais não relacionados
  • Para a maioria das pessoas com dor lombar não é possível atualmente identificar de forma clara qual a origem da sua dor. É preciso deixar cair de vez o mito de que o aparecimento de alterações nos Raio-X, nas TAC ou nas Ressonâncias Magnéticas, tenha alguma relação direta com a dor de costas. A verdade é que muitas vezes não sabemos o que causa a dor lombar. É também verdade que existe uma percentagem significativa de pessoas que tem alterações nos Raio-X, TAC ou RMN, e NÃO tem Dor lombar.
  • A dor lombar pode estar associada a sintomas neurológicos como a radiculopatia ou a estenose do canal espinhal. O diagnóstico destas situações obedece a critérios clínicos bem definidos, sendo que muitas vezes são utilizados de forma abusiva os termos ciática e/ou hérnia discal, para classificar situações que não correspondem aos mesmos, devendo tal ser evitado, visto que causam percepções erradas nos pacientes.
  • Existem alguns casos de dor lombar que podem ser causados por doenças específicas como tumores, fraturas vertebrais ou doenças inflamatórias que requerem encaminhamento e tratamento específico, mas a esmagadora maioria dos casos cabem dentro da chamada dor lombar não específica.
Assim, a dor lombar não específica (a mais comum de todas) é uma condição complexa mas não grave, com múltiplos fatores contributivos para a dor e a incapacidade, nomeadamente fatores genéticos, psicológicos, sociais, biofísicos e de comorbilidades.



É tempo de abandonar o velho paradigma biomédico vigente sobre dor lombar.
O modelo biomédico que diz que a dor lombar é causada por alterações nas estruturas da coluna (bicos de papagaio, protusões discais, etc.) é reducionista e deve ser revisto.
A realidade da dor lombar é mais complexa e muitas vezes nada tem a ver com alterações nas estruturas da coluna, mas sim com fatores de stress psicológico e/ou social, com um estilo de vida inadequado, com a falta de exercício físico ou com problemas laborais.


O que causa então a Dor Lombar/Lombalgia?
  • Os fatores associados ao estilo de vida, nomeadamente o fumar, a obesidade, a inatividade física e as ocupações sedentárias, que estão normalmente relacionados com uma pior saúde global, estão também associados com a ocorrência de episódios de dor lombar. Pessoas já com outros problemas de saúde são mais propensas a sofrer de dor lombar.

  • Sabe-se também que fatores psicológicos como estados depressivos, catastrofização da dor e/ou medo da dor, levam a dor a tornar-se crónica. Fatores sociais como insatisfação no trabalho, má compensação monetária e cargas excessivas no trabalho também contribuem para a dor tornar-se crónica.

Como se trata a Dor Lombar/Lombalgia?

  • A maioria dos episódios de dor lombar tem um curso natural positivo, melhorando significativamente em 6 semanas. Contudo, cerca de dois terços dos pacientes ainda reporta dor aos 3 meses.
  • Todas as guidelines recomendam o permanecer ativo, a educação sobre a condição e a prática de exercício terapêutico como primeira linha de ação.
  • Recomendam também menos ênfase nos tratamentos farmacológicos e cirúrgicos. A utilização de exames imagiológicos como exames de rotina não é recomendada.

  • Ultra-sons, ondas curtas, TENS, correntes interferenciais, tração e cintas lombares não são eficazes e não são recomendados.

Segue-se um resumo sobre as recomendações atuais (baseadas na revista The Lancet) para a dor lombar não específica.
Dor lombar aguda (até 6 semanas)
Primeira linha de tratamento:
  • Aconselhamento para permanecer ativo e evitar o descanso
  • Educação sobre a dor lombar *
  • Exercício terapêutico (limitado a alguns pacientes)
  • Terapia cognitivo-comportamental (limitado a alguns pacientes)
Segunda linha de tratamento:
  • manipulação espinhal
  • massagem
  • acupunctura
  • AINE's
  • Relaxantes musculares (limitado a alguns pacientes)
  • Opióides (limitado a alguns pacientes, usar com cuidado)
Abordagens não recomendadas:
  • corticóides
  • paracetamol
Abordagens em que não existe evidência suficiente:
  • Yoga
  • Terapias de mindfulness para reduzir stress
  • Cirurgia

Dor lombar crónica (dura mais de 12 semanas)
Primeira linha de tratamento:
  • Aconselhamento para permanecer ativo e evitar o descanso
  • Educação sobre a dor lombar *
  • Exercício terapêutico
  • Terapia cognitivo-comportamental
Segunda linha de tratamento:
  • manipulação espinhal
  • massagem
  • acupunctura
  • Yoga
  • Terapias de mindfulness para reduzir stress
  • AINES's
  • Opióides (limitado a alguns pacientes, usar com cuidado)
  • Cirurgia (limitado a alguns pacientes)
  • Injecção de corticóides (limitado a alguns pacientes)
Abordagens não recomendadas:
  • Corticóides orais
  • Paracetamol


Relativamente à prevenção não existe praticamente investigação feita. Os únicos tratamentos efetivos conhecidos para a prevenção secundária (ou seja, após a primeira crise) são o exercício e a educação.
* A educação deve visar a explicação ao indivíduo sobre a natureza da dor lombar, da evolução natural positiva da condição e de que não tem nenhuma doença grave, e do aconselhamento para se manter ativo e a trabalhar e evitar o descanso.
Os procedimentos invasivos, nomeadamente a cirurgia, têm um papel muito limitado na dor lombar.


Porque afinal estamos a fazer tudo mal em relação à Dor Lombar/Lombalgia?


Porque, infelizmente, os tratamentos normalmente utilizados não são baseados nestas recomendações. Abusa-se dos exames imagiológicos, dos opióides, das injeções e das cirurgias.
Na maior parte dos casos é prescrita medicação ou injeções e quando prescritos tratamentos físicos normalmente opta-se por modalidade elétricas quando o exercício deveria ser a primeira linha de ação.
Esta utilização excessiva de exames imagiológicos cria falsa noções sobre o que causa a dor lombar e as potenciais consequências a longo prazo do uso de opióides são também fonte de preocupação. É importante saber que não existe evidência de que a realização de exames imagiológicos melhore o prognóstico da dor lombar, e que as recomendações vão no sentido de não utilizar exames imagiológicos como procedimento de rotina em situações de dor lombar.
Para além disto, embora se saiba que a esmagadora maioria dos casos de dor lombar aguda não constituem emergências médicas, a maior parte das pessoas continua a recorrer às Urgências Hospitalares.

Resumindo, muitos dos cuidados de saúde aplicados diariamente para a dor lombar são ineficazes, inapropriados, não necessários e estão a piorar o problema. As pessoas não estão a receber os cuidados de saúde necessários e apropriados à sua situação (aconselhamento e educação, exercício terapêutico).


O que fazer então?
  • É preciso mudar a mentalidade e o comportamento dos clínicos e assegurar os cuidados certos, baseados maioritariamente no aconselhamento e educação corretos às pessoas e no exercício terapêutico.
  • É preciso transmitir às pessoas que as alterações nos Raios-X, TAC ou RMN, não são necessariamente a causa da sua dor lombar, mas que o seu estilo de vida, a forma como gerem o seu stress, o tipo de trabalho que têm e a sua satisfação com o mesmo, e as crenças que têm sobre o que é a dor lombar e como se trata, estão muito mais ligados à sua dor do que o que aparece nos exames.
  • É preciso capacitar as pessoas para conseguirem tratar a sua dor e prevenir o aparecimento de crises, através de mudanças no estilo de vida, gestão do stress e participação em programas e aulas de exercício terapêutico.


Artigo baseado na série da revista The Lancet sobre Dor Lombar.
Mais informação em:




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